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12 de Março de 2007
Intrigas e complôs no harém real

Longe de ser mera curiosidade, o serralho constituiu um dos principais fatores da decadência do Império Otomano. A conspiração era prato diário, mobilizando esposas, favoritas, concubinas e eunucos.

Por Yves Bomati

A musicista, pintura de Francesco Ballesio, século XIX. A arte ocidental inspirou-se no harém turco para abordar o tema da sensualidade feminina

 

 

 

 

Em 1922, destituído do título de sultão, Mehmet VI exilou-se na Grã-Bretanha - fora banido por Mustafá Kemal, o Atatürk, futuro presidente da nascente República turca. O Império Otomano assistia a seus últimos dias. Abolido o sultanato, o velho mundo desabava. O impressionante harém da residência real de Dolmabahçe - herdeira de Topkapi - não tinha mais razão de ser.

As mulheres reclusas o abandonaram. As portas pesadas por instantes abertas para os jardins luxuriantes e as fontes cristalinas, os pórticos elegantes onde ainda se agitavam musselinas e brocados fecharam-se para sempre, engolindo em seus labirintos inúmeras fantasias ocidentais. O Oriente perdia seu tempero. A esfuziante Istambul, de quem Ancara tinha acabado de arrebatar o título de capital, passou a existir apenas na memória. O harém tornou-se museu, despojado de seus ornamentos vivos: as mulheres. Um modo de vida desaparecia, e, com ele, uma instituição freqüentemente incompreendida no Ocidente: o harém.

Musicistas da Corte, de Gustavo Simone, século XIX

 

 

 

 

 

 

O harém otomano era um lugar à parte, proibido e discreto - a palavra árabe haram significa "o que é resguardado, sagrado" -, destinado a canalizar os desejos do sultão por meio do fornecimento incessante de virgens estrangeiras. Como o império era regido segundo o princípio da primogenitura masculina, o futuro dinástico estava assegurado. Além disso, o concubinato do sultão com suas escravas extinguia a ambição das grandes famílias turcas, desejosas de alcançar o poder supremo, ao mesmo tempo que garantia ao Império um continuador do sexo masculino retirado de um "viveiro" de herdeiros potenciais.

Na noite de 28 de maio de 1453, ao se apoderar de Bizâncio, o sultão Mehmed II, que havia subido ao trono havia dois anos (governou de 1444 a 1446 e de 1451 a 1481), fez triunfar a civilização muçulmana. Uma de suas primeiras providências foi transformar em mesquita a catedral de Santa Sofia, símbolo do cristianismo ortodoxo. Seu segundo gesto consistiu em estabelecer, no centro de Istambul, sua residência real, Esky Saray, o Velho Palácio, e o harém real. Em seguida, lançou-se à construção do Yény Saray, o Novo Palácio, no sítio da antiga acrópole de Bizâncio, o futuro Topkapi.

Mehmed II instalou-se ali, mas manteve seu harém no Velho Palácio, reduzindo sua influência. No entanto, depois de um incêndio parcial, Solimão, o Magnífico (1520-1566), cedendo às pressões de sua esposa preferida, Hurrem, decidiu transferi-lo para o Novo Palácio, perto de seus apartamentos. Lançado ao coração dos assuntos do Estado, o harém contribuiu para a guinada política de um dos impérios dominantes do mundo.

O poder do harém era resultado de sua organização rigorosa. Sob o exterior voluptuoso, vivia segundo uma disciplina muito severa, essencial por sua função e pelo número de residentes: 373 mulheres em 1600, 642 em 1622 e 967 em 1652. A título de comparação, o harém real do vizinho e inimigo persa contou, no decorrer do século XVII, com até 500 mulheres, enquanto o harém indiano do grande Mogul Akbar (1556-1605) reunia mais de 5 mil mulheres. Aliás, esse número tão alto sempre despertou as fantasias dos viajantes ocidentais, excitados pelas perspectivas de tal reserva para um único homem. Eles não levavam em conta o fato de o Corão prever a poligamia. Um verso famoso diz: "Desposai as mulheres agradáveis a vossos olhos, duas, três ou quatro, [mas] se temerdes não poder ser eqüitativo para com elas, [tomai], então, uma só, ou concubinas!" (IV, 3).

É verdade que as mulheres do harém eram especialmente sedutoras. Em princípio, eram recrutadas entre as populações submetidas ao império. Eram conquistadas nas pilhagens de guerra, como a famosa Nurbanu, "Princesa Luz", a esposa preferida de Selim I e mãe de Murat III. Ao ingressar no harém, as mulheres mudavam de nome. A famosa Roxelane, "a Russa", ucraniana adotou o nome de Hurrem, "Aquela que ri". Essa nova identidade, marcava sua condição servil. 

Todas viviam sob a autoridade da primeira-dama do harém, a mãe do sultão, a sultana Validé. Essa antiga escrava, ao garantir o primeiro descendente do sexo masculino ao sultão precedente, tornava-se também a primeira-dama do Império, segundo o princípio de que, se o senhor podia ter diversas mulheres, tinha uma única mãe. Símbolo de um matriarcado de fato, garantia da segurança e do prestígio do país, a sultana Validé receberia, no século XVIII, a pensão mais elevada do império.

A magnificência de suas funções assinalava sua alta posição. Uma ou duas semanas depois da subida do filho ao trono, ela era conduzida do Velho Palácio, chamado de Palácio das Lágrimas, onde ficara afastada, para o Novo Palácio, em meio a uma multidão de cortesãos. Ela então entrava em uma carruagem de cerimônia, seguida por uma carruagem menor, de onde servidores lançavam moedas ao povo. Quando chegava ao palácio, o filho a saudava. As relações de todos com a sultana Validé - exceto seu filho - obedeciam a uma etiqueta estrita: ninguém podia ser recebido se não tivesse solicitado audiência. A "Rainha Mãe" era o centro do sistema "harêmico".

Sua autoridade dava origem a todas as decisões referentes às solicitações das mulheres do harém, e também lhe cabia decidir as funções hierárquicas de cada uma.

As integrantes do harém sonhavam ser a sucessora da sultana Validé. Algumas, ignoradas pelo sultão, podiam casar-se fora do harém imperial depois de nove anos de serviço, quando eram valorizadas pela qualidade de sua educação. Outras, as mais belas, as odaliscas que passavam algumas noites com o senhor e, por esse privilégio, estavam condenadas à "reclusão perpétua", podiam aspirar ao título de esposas legítimas, kadins, se tivessem um filho do sexo masculino, e ao de primeira esposa, caso dessem à luz ao herdeiro do trono, único caminho para o status de Validé.

A corrida ao título supremo era longa e semeada de armadilhas. Em caso de fracasso, elas eram relegadas, após o falecimento do monarca, ao Palácio das Lágrimas, onde ficavam até morrer. Poucas teriam a sorte da famosa Kössem,  esposa de Ahmed I, que ingressou ali com a morte do sultão, em 1617, e tornou-se sultana Validé em 1623, quando da ascensão ao trono de seu filho Murad IV.(Ilustracão de eunuco, em livro do século XVII; ele representava o mediador entre o harém e o mundo externo)

A castração masculina
Para assegurar a ligação entre o harém principesco e o mundo exterior, foi necessária uma função de mediação, assumida pelos eunucos. A prática da castração masculina, embora proibida pelo Corão, remete à Antigüidade oriental e a Bizâncio. Os brancos eram guardiões da porta exterior do harém. Os negros, originários do Sudão, guardavam a porta interior. Vendidos como escravos no bazar vizinho, como as mulheres do harém, recebiam novos nomes ao assumirem suas funções: "Tulipa", "Peixe Vermelho", "Jasmim", "Açafrão" etc. Os eunucos otomanos apresentavam outra particularidade: à diferença dos homólogos persas, "totalmente cortados", a castração removia-lhes apenas os testículos, e não o pênis. Isso explicaria por que tantas intrigas amorosas se tornaram conhecidas no harém da Sublime Porta, e por que os eunucos otomanos desempenharam papel tão importante na política turca.

A situação particular dos eunucos otomanos lhes assegurou, entre 1574 e 1908, posição invejável na organização do império e na repartição dos poderes. Seu papel era múltiplo: mensageiros entre as mulheres que viviam fora do harém e as que ali residiam, também faziam a ligação entre o sultão - quando este decidia não deixar o harém - e seus vizires. O chefe dos eunucos negros ocupava um lugar privilegiado entre eles: autorizado a aproximar-se do sultão a qualquer momento e influenciando-o com as informações que detinha, dispunha do poder de apressar ou retardar uma entrevista com um dignitário ou embaixador. Além disso, era extremamente rico, pois administrava as finanças do harém, bem como as das mesquitas imperiais.
Exercia assim o cargo de chefe de uma força clandestina considerável, cujo apoio era muito procurado. Por fim, estava incumbido de guardar os príncipes, enclausurados em pequenos apartamentos pelo resto de seus dias, salvo em caso de necessidade. Solimão II, por exemplo, passou 40 anos num deles antes de subir ao trono em 1687. Tratava-se de tarefa importante, de grande dimensão política, pois esses herdeiros potenciais representavam constante perigo para o sultão no poder.

O poder da mãe do sultão
O harém era um paraíso? Ao contrário do que sugere a literatura sobre o tema, a realidade ali era pouco encantadora. Em Topkapi, a vida das mulheres se organizava em torno de três pátios. O primeiro e mais central era reservado à mãe do sultão. Junto a ele ficavam os apartamentos da Validé, os mais luxuosos do harém, com salão, quarto, aposento para orações, móveis para repouso, toalete e banho turco.

Os dois outros pátios - a oeste, o das kadins e, a leste, o das concubinas - também eram ladeados por apartamentos, na verdade uma profusão de pequenos quartos, tetos ornados de arabescos dourados e paredes recobertas por cerâmicas esmaltadas de Iznik. Alguns dispunham até de torneiras.

O harém era uma prisão de luxo para as mulheres do sultão. Nem sempre aquelas "deixadas à própria sorte" estavam numa situação pior. As kalfas, escolhidas pela sultana Validé, eram as administradoras de alto nível do harém. Reconhecíveis pelo vestido de cauda forrado, eram dignitárias cujo bastão cerimonial simbolizava o poder. Sob suas ordens, um exército de servidoras remuneradas, as djariyes, consumia-se em trabalhos de intendência: limpeza, lavanderia, aquecimento e abastecimento.

As outras mulheres - sem dúvida as mais invejadas - passavam os dias em uma ociosidade ritmada pelo ritual do banho turco, cujos prazeres foram descritos em 1717-1718 por lady Mary Wortley Montague, esposa do embaixador britânico: "Os primeiros sofás eram cobertos por almofadas e ricos tapetes nos quais estavam sentadas as damas. (...) Tantas belas mulheres nuas em diferentes atitudes, umas conversando, outras com trabalhos de costura, outras bebendo café ou sorvetes à base de suco de fruta". Mais tarde, elas podiam ser encontradas nos jardins. Thomas Dallam, inglês fabricante de órgãos, conseguiu vê-las em 1599, graças à indiscrição de um janízaro, e escreveu: "Elas não traziam nada sobre a cabeça senão um pequeno boné dourado, que cobria apenas o topo; nem faixas de tecido em torno do pescoço nem nada, mas belos colares de pérolas, uma jóia pendente sobre o busto e nas orelhas. As túnicas [...] eram de cetim, vermelhas, azuis ou de outras cores, tendo, na cintura, um cordão de cor contrastante. Essas jovens vestiam calças de algodão branco como a neve e tão fino quanto uma gaze, pois pude discernir a pele de suas coxas através dele". Era ali também que elas dançavam, fumavam o narguilé, jogavam xadrez e se enchiam de doces, uma vez que os sultões gostavam de mulheres de contornos generosos. Por vezes bordavam, pois, como recorda o viajante italiano Pietro della Valle (1586-1652), elas não tinham rivais na arte de "bem trabalhar o linho e em outras obras que faziam também com seda de diversas cores, (...) nas quais aparecia o mesmo motivo nos dois lados, tecidos com ouro e prata em telas brancas muito finas e transparentes, e em alguns tecidos".

No entanto, todos esses lazeres não ocultavam sua ocupação principal: a espera do sultão. Seriam escolhidas? Ou deveriam antes embelezar a nova escrava observada pelo mestre? Porque a sultana Validé era a grande fornecedora de jovens beldades. Quando seu filho a visitava, ela pedia sempre às jovens escravas que servissem o café. Se o sultão prestasse atenção em alguma, dizia-se que ela estava gödze, "no olho". Escoltada pelo chefe dos eunucos, a "feliz eleita" era perfumada, enfeitada suntuosamente e vestida pelas mulheres do harém, antes de ser conduzida até os aposentos do sultão.

Se a noite "corresse bem", ou seja, se o sultão lhe tivesse "prestado justiça", ela tornava-se ikbal, favorita. Compreende-se que tais práticas - num mundo fechado - tenham gerado rivalidades agudas. Assim, quando Solimão começou a notar Hurrem, a circassiana Mahidevran, mãe de Mustafá - o filho mais velho do sultão - e, por esse título, futura Validé, considerando que todas as mulheres do harém desde já lhe deviam submissão, arranhou o rosto da rival chamando-a de "carne podre". Informado dessa história, Solimão exilou a primeira kadin em Bursa, onde ela morreu, esquecida por todos, em 1581. O abandono pelo sultão era dramático. Aquelas que haviam desagradado ao mestre ou a quem ele não mais prestava justiça iam engrossar as fileiras das esquecidas no Palácio das Lágrimas.

A mulher velha e os eunucos
A vida no harém era complexa. Sob a tranqüilidade luxuosa escondia-se o sexo prisioneiro e mudo em que todo mundo pensava. Um sexo canalizado por uma mulher velha, Validé, e vigiado por seres híbridos, os eunucos.

O harém era um lugar de poder, ao mesmo tempo fechado e "público", como observou Jean Chardin, viajante francês do século XVII. Contrariando a opinião do filósofo árabe Averróis (1126-1198), de que, "nesses Estados, as mulheres não são consideradas capazes de nenhuma virtude humana", é preciso reconhecer que, além de saber tecer bordados e poesias, ao contrário das hóspedes do harém persa, as otomanas dominavam a arte de tecer intrigas, designando e derrubando vizires.

Sua fonte de informação era direta, como evidencia um orifício circular aberto em uma parede acima da sala do Conselho, o Divã, desde o século XVI, um ouvido do harém que recolhia em primeira mão os projetos e decisões políticas. Tarkhan Khadidje, sultana Validé no reinado de Mehmet IV, foi mais longe: escondida atrás de uma cortina, participava das reuniões do Divã, onde fazia sentir sua influência. Os sultões estavam a tal ponto sob a ascendência do harém que o embaixador de Veneza escreveu a respeito de Murad III: "As mulheres e os eunucos estão sempre ao redor dele e em geral podem ter a última palavra".

Se o poder dos eunucos era grande, o das Validés era imenso, reconhecido tanto por aliados quanto por adversários políticos, dentro e fora do império. Caso o sultão fosse menor de idade ou um degenerado - o que acontecia com freqüência - ou demasiado ocupado por jogos eróticos, era a sultana Validé quem assegurava o essencial do poder. A população de Istambul não se enganava a esse respeito, e costumava dizer: "Todo bem e todo mal vem da Rainha Mãe".

Nurbanu, mãe de Murad III, embora vivesse em um palácio fora dos muros da cidade, controlava tudo. Contribuindo para manter a paz entre a Sereníssima e a Sublime Porta, ela solicitou sedas e brocados diretamente ao representante de Veneza por sua diplomacia. "Sultana Rainha Mãe do Grande Senhor", ela se correspondia também com a "Rainha Mãe do Rei", Catarina de Médici, na França, e opinou sobre os tratados estabelecidos entre os dois países. Como aconteceu com Hurrem, ela deixaria de si mesma uma imagem fecunda, fazendo construir com seus próprios recursos, em Uskudar, subúrbio asiático de Istambul, uma mesquita celebrando a glória de Alá, um hospital, um hammam (estabelecimento de banhos) e três escolas corânicas, além de oferecer uma sopa popular para os pobres e miseráveis.

Mulheres excepcionais, as Validés detinham o poder. Para conquistar a posição e nela permanecer, sabiam como tirar partido dos ambiciosos, estimulando a corrupção, um mal que devoraria o Império Otomano até sua queda. Reinando em seu jardim do Éden sobre um mundo bem real, elas regeram durante quatro séculos a sorte dos otomanos, deixando ao mesmo tempo às imaginações fecundas do Ocidente o perfume proibido que fez a sedução e o mistério do harém.•

Publicado por Paulo Nunes, de YVES BOMATI [doutor em letras e ciências humanas e historiador das religiões. Publicou, com Houchang Nahavandi, Shah Abbas, empereur de Perse, 1589-1629 (Xá Abbas, imperador da Pérsia), Éditions Perrin, 1998] - Do UOL HISTÓRIA VIVA, às 14:17
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04 de Janeiro de 2007
Movimento dos sem-nação! Vários povos tentam o que judeus conseguiram: um Estado para chamar de seu

Ano após ano, por dois milênios, os judeus repetiam na Páscoa: "Ano que vem em Jerusalém". A frase simbolizava o desejo de voltar a Israel, a Terra Prometida, de onde foram expulsos pelos romanos em 70 d.C. O desejo virou realidade em 1948, quando a Organização das Nações Unidas decretou a criação do Estado de Israel.

O problema da criação de um Estado nacional estava resolvido para os judeus. Mas para os palestinos, que habitavam a região desde o século 12, ele apenas começava.

Até a criação de Israel, os palestinos não reivindicavam para si uma identidade nacional própria. "Eles só se deram conta de que eram um povo e de que queriam um Estado nacional quando viram os judeus conseguirem o deles", diz o historiador Jaime Pinsky, organizador do livro Questão Nacional e Marxismo.

A idéia da ONU era dividir a Palestina em um país judeu e um palestino, mas na época os árabes não aceitaram. Muitas guerras, protestos e atentados depois, o proclamado Estado nacional palestino ainda não foi criado.
Como os palestinos, outros povos lutam para ter um território reconhecido. É o caso dos curdos, a maior nação sem Estado do mundo, com cerca de 26 milhões de pessoas.

"Reconhecido, o Curdistão teria abundância de petróleo, o chamado 'ouro negro', e de água, o 'ouro azul'", diz o geógrafo Nelson Bacic Olic, autor de Oriente Médio e a Questão Palestina. Afinal, o território curdo fica entre o norte do Iraque, abundante em petróleo, e o oeste da Turquia, onde nascem o Tigre e o Eufrates, principais rios de uma região escassa em água.

Além dos povos que brigam há anos por uma nação, existem os que tiveram seu problema acentuado após a Guerra Fria, como os albaneses de Kosovo e os chechenos. Na maioria dos casos, os conflitos continuam. E a solução parece distante.

Na luta por um país
Estes povos estão organizados e têm identidade nacional, mas não são reconhecidos como Estado

1- Católicos irlandeses
O Eire, ou República da Irlanda, é independente e tem maioria católica. O restante, o chamado Ulster, a Irlanda do Norte, de maioria protestante, está sob domínio do Reino Unido. Os católicos do Ulster querem a independência, mas abandonaram a luta armada.

2- Bascos
Com língua e cultura próprias, lutam pela independência da Espanha. Em 1959, durante a ditadura franquista, criaram a organização separatista ETA, que perdeu força com o passar dos anos e agora está em trégua com o governo.

3- Saarauís
Habitam o Saara Ocidental, abandonado pela Espanha em 1975. Como tem as maiores jazidas de fosfato do mundo, o Marrocos o reivindicou para si. Desde 1991 a ONU tenta decidir a situação, mas até agora não há um acordo.

4- Albaneses de Kosovo
Os albaneses separatistas da província de Kosovo, na Sérvia, foram massacrados pelas tropas do presidente iugoslavo Slobodan Milosevic. Em 1999, a Otan interveio na região, que está sob administração provisória da ONU.

5- Turcos-cipriotas
Em 1974, os turcos invadiram a ilha do Chipre, dividindo-a entre os turcos-cipriotas do norte e os gregos-cipriotas do sul, que já a habitavam. Surgiu a República Turca de Chipre do Norte - que, no entanto, só é reconhecida pela Turquia.

6- Palestinos
Habitantes da Palestina (que é uma região, e não um país), reivindicam um Estado desde a criação de Israel. Nem com a retirada de 8 500 colonos judeus da Faixa de Gaza, em 2005, os atentados e retaliações tiveram fim.

7- Curdos
Estão presentes na Síria, no Irã, na Armênia, no norte do Iraque e no oeste da Turquia - que não pretendem ceder território. Iraque e Turquia apóiam partidos políticos rivais para enfraquecer o movimento de independência.

8- Abecazes e ossetianos
Na Geórgia, dois povos brigam. A Abkházia quer independência desde 1992 - tem até presidente. Os ossetianos do sul querem se integrar à Ossétia do Norte (divisão da Federação Russa) e declararam independência em 1990, que não foi reconhecida.

9- Chechenos
República de maioria muçulmana, a Chechênia é oficialmente parte da Rússia. Após o fim da União Soviética, os chechenos proclamaram independência, que, embora não reconhecida, gerou (e ainda gera) embates com os russos.

10- Armênios
Enclave armênio no Azerbaijão, o Nagorno-Karabakh é motivo de conflito. Em 1991, a região declarou-se independente e foi bombardeada pelo governo azeri. Os rebeldes continuam a luta pela independência, só reconhecida pela Armênia.

11- Caxemires
A Caxemira é dividida entre Índia e Paquistão. Muçulmanos da parte indiana querem a independência ou a anexação ao Paquistão. As nações quase chegaram à guerra, mas um terremoto no lado paquistanês em 2005 causou uma trégua.

12- Tâmeis
De origem indiana e religião hindu, querem a independência do governo do Sri Lanka. Em 1983, teve início a luta armada contra os cingaleses (com uma trégua após o tsunami de 2004). Hoje, tentam um consenso para acabar com a briga.•

Publicado por Paulo Nunes, de Jeanne Callegari, às 12:57
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15 de Janeiro de 2007
Tributo a outro rei do baião

Vida e obra do compositor Humberto Teixeira são resgatadas em dois luxuosos volumes bilíngües
  
Humberto Teixeira, a outra majestade do baião, co-autor de um dos maiores clássicos da MPB, Asa branca, ganha um novo tributo póstumo. Depois do CD O doutor do baião (Biscoito Fino/2003), uma iniciativa de sua filha, a atriz e produtora Denise Dummont, o célebre parceiro de Luiz Gonzaga tem sua vida e obra poético-musical resgatadas em dois luxuosos volumes bilíngües (português-inglês): Cancioneiro de Humberto Teixeira - Biografia e Cancioneiro de Humberto Teixeira - Obras escolhidas. Junto com Gonzagão, o compositor cearense (1915-1979) traçou uma das mais notórias passagens na história musical brasileira.


Concebido pelo maestro Tom Jobim, o projeto foi concretizado por sua viúva, a fotógrafa e cantora Ana Jobim (produção executiva), e seu filho, Paulo Jobim (supervisor musical), sob o patrocínio exclusivo do Banco do Nordeste. A dupla publicação da editora Jobim Music, em parceria com a Good Ju-Ju, coordenada por Denise Dummont, contou com uma equipe de peso. O prefácio coube ao crítico musical e jornalista Tárik de Sousa. O escritor e também jornalista Sérgio Cabral assina a introdução da obra. Os textos são do pesquisador Ricardo Cravo Albin e a apresentação, de Roberto Smith, presidente do BNB. Já o design gráfico ficou a cargo de Gringo Cardia.


No primeiro livro, uma rica história de vida do artista, um misto de intelectual, acadêmico e contador popular da história do povo nordestino. Filho de família de classe média, o romântico Humberto Teixeira desfilava porte elegante, sorriso largo, cabeleira negra e vestia-se bem. Costumava seduzir as pessoas pela palavra, o que rendia-lhe o título de "jovem mestre na arte de encantar as pessoas".


No segundo, obras do autor, com transcrição de 41 partituras e arranjos elaborados por Wagner Tiso. Dividida em seis capítulos, a biografia começa pelo final do Verão carioca de 1932, quando Humberto Teixeira, 17 anos, ao lado do irmão Joacy, desembarcou de terno e gravata na estação de trem Central do Brasil, vindo de Iguatu, sertão cearense. Nos seus primeiros momentos em solo carioca, Humberto teve diversos empregos. Vendeu óculos ray-ban, trabalhou em restaurante, foi telefonista.


Mas entrar para a música era sua real obsessão, perseguida com determinação. O garoto "sonhava, embora quase secretamente, em entrar nesse mundo, ao vir para o Rio de janeiro", como enalteceu o pesquisador Ricardo Cravo Albin. Dois anos depois de sua chegada, o compositor já garantia seu sucesso de estréia: Meu pedacinho. Foi um dos cinco premiados, entre os quais o já consagrado Ary Barroso. A partir daí, ele - que nessa altura já havia trocado o curso de medicina pelo de direito - começou a editar suas valsas, toadas e modas.


No final dos 30, anos nacionalistas protagonizados pelo samba-e-xaltação de Ary Barroso, o compositor lançou Sinfonia do café, que a Continental logo se interessou em gravar. Essa música, considerava o autor, foi o seu cartão de visita que lhe abriu as portas para o universo fonográfico. Com A marcha do balanceio (em parceria com Lauro Maia), surpresa no Carnaval de 1946 gravada pela dupla Joel e Gaúcho, Humberto Teixeira se consagrou. Não demorou muito, surgia para o público o baião e a parceria com Gonzagão.


Sedutor e conservador - O jovem advogado estava no seu escritório, numa tarde de Inverno carioca, quando bate à porta, acompanhado pelo compositor Lauro Maia, "um nordestino, de sorriso rasgado, rosto redondo e pele curtida", como está descrito na biografia. Daquele encontro com Luiz Gonzaga, em 1945, cravava na história da MPB a parceria que recriaria o baião - um ritmo muito antigo e pouco conhecido, embora tradicional em todo o Nordeste. A partir de então, o gênero ressuscitaria por 15 anos de sucesso no país inteiro, com repercussão internacional.  


A primeira música lançada e editada da dupla foi Baião, mas foram os versos do clássico Asa branca os primeiros a serem compostos pelos dois, ainda naquele encontro vespertino. Acreditavam eles que os ritmos nordestinos poderiam fazer grande sucesso no Sul-Sudeste mas, até então, Luiz Gonzaga não tinha tido sorte de gravar uma música do gênero. Convicto, Humberto Teixeira dizia que "havia, sim, um filão generoso a explorar, até então virgem, ou quase, pois não passavam de encenações grosseiras aqueles programas ditos sertanejos com emboladas e rancheiras".  


Mas por toda a vida artística, Humberto Teixeira fazia questão de frisar que não foi e nem teve a pretensão de ser o "inventor do baião", como insistia a mídia. "Apenas, estimulado pela presença forte de Luiz, urbanizei e depois adaptei ao estilo citadino esse antigo ritmo, já conhecido e tradicional nas veredas de boa parte do Nordeste, tão velho quanto o sertão que lhe deu berço. O baião sempre existiu nas quebradas do sertão, sempre foi música do povo", discursava ele que, junto com o parceiro Luiz Gonzaga, compôs sucessos como Baião de dois, Assum-preto, Légua tirana, Paraiba, Juazeiro, No meu pé de serra, Qui nem jiló, Respeita Januário e Xandusinha. É inquestionável, entretanto, o fato de  HT e LG terem deflagrado o movimento do baião, espontaneamente consagrado pelo grande público. 


Apesar de todos os rasgos e sedução pessoal, Humberto Teixeira era um homem conservador e ditador, além de boêmio. Casou-se com Margarida, pianista clássica e atriz. Ele idealizara uma mulher do lar, daí o casamento ter entrado em crise e rompido, na seqüência. O conservadorismo de HT respingou em Denise, sua filha, que, por querer ser artista, teve sérios embates com o pai. Tanto que usou o sobrenome Dummont (criado pelos diretores Daniel Filho e Walter Avancini) diante da proibição de Humberto de usar o seu.


A relação, apesar de muito próxima, era também distante. Um dia antes de o pai sofrer um enfarto fulminante, Denise almoçou com ele e conta que, pela primeira vez, sentiu que poderiam ser amigos e próximos de verdade. Depois disso, foram mais de 20 anos sem conseguir lidar com nada relacionado a ele. "De repente eu vi a importância e urgência de resgatar a memória de sua vida e de sua obra, não só para as novas gerações, mas especialmente para vocês dois. Vocês, como eu, herdaram um legado riquíssimo e seria uma lástima não terem conhecimento da extensão disso. Esse é um livro dedicado a vocês", escreveu Denise Dummont para Diogo e Anna Bella, seus filhos, netos de Humberto Teixeira.


***
A brasilidade de um compositor gigante


No universo sonoro popular brasileiro do século XX, a música do Nordeste é uma de suas vertentes mais vitais. Jackson do Pandeiro, com seu incrível senso rítmico, influenciou várias gerações. O movimento musical contemporâneo de Pernambuco teve em Alceu Valença seu precursor e depois vieram Chico Science e Lenine, este um de seus mais atuais representantes. O pessoal do Ceará, liderado por Fagner e Belchior, escreveu história. Da Paraiba para o Sudeste, Elba Ramalho rompeu preconceitos. Os Novos Baianos, a Bossa Nova e a Tropicália repercutiram a Bahia por todo o mundo. Mas foram Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira que protagonizaram a cena regional mais marcante, nos meados dos anos 40.


"Humberto e Gonzaga foram os responsáveis pela hegemonia da música nordestina por mais de um decênio graças a um novo ritmo criado por eles - o baião - e que era baseado na própria música tradicional do Nordeste ainda sem ingresso na sociedade de consumo", escreveu Sérgio Cabral, na apresentação de Cancioneiro de Humberto Teixeira - Biografia. O baião não só abriu espaço para o surgimento de novos compositores, como também influenciou autores "que jamais haviam tentado compor músicas com sabor nordestino", como analisou o escritor e jornalista, citando como exemplo extraordinário o chorão Waldir Azevedo, que ecoou internacionalmente o gênero quando compôs e interpretou o baião Delicado.


"Não sei por que os historiadores sempre dão um pulo da época dos sambas-canção, das músicas carnavalescas, dos sucessos do bolero, direto para a bossa nova. E passam por cima de um interregno, deixando em brancas nuvens seis, sete anos de império total e absoluto da minha música e a de Luiz Gonzaga", questionava o cearense Humberto Teixeira que já assinava uma obra autoral de respeito quando foi apresentado a Gonzagão.


O véi Lua, que já procurava um letrista para as suas músicas, encontrou nele um parceiro ideal. Humberto, por sua vez, tornou-se um dos maiores compositores de toda a história da MPB. "Revelou-se o poeta (e muitas vezes também o melodista) que trazia 'a poesia e a música no coração', como acentuou certa vez o grande romancista José Lins do Rego", assinalou Sérgio Cabral. O baião invadiu o Brasil e o mundo na década de 50, sendo utilizado até mesmo em trilhas sonoras de filmes italianos.


Em 1954, HT tornou-se deputado pelo Ceará e criou a única lei (que levava o seu nome) destinada a estimular a divulgação da música brasileira no exterior. "Uma iniciativa tão feliz que, sem dúvida, justificaria um mandato inteiro. O grande compositor, porém, queria mais para a nossa música e assumiu, na mesma década, a condição de grande lutador na defesa do direito autoral dos compositores", registrou Cabral. "Por tudo isso", completou, "mais do que um grande compositor, foi um grande brasileiro".


***
FICHA


Livros: Cancioneiro de Humberto Teixeira
Textos: Ricardo Cravo Albin
Editora: Jobim Music/Good Ju-Ju
Páginas: 188 (biografia) e 176 (partituras)
Preço: R$176.•

Publicado por Paulo Nunes, de Cláudia Lessa, às 22:33
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03 de Janeiro de 2007
Maracatu Rural é o tema do carnaval no Spa Oásis

Em Pernambuco quando se fala em carnaval, fala-se em tradição. Em 2007, o estado pernambucano prepara-se para comemorar 100 anos de frevo, recordando também os blocos, passistas e personagens folclóricos da região. No Spa Oásis não será diferente. O hotel já se prepara para receber seus hóspedes com uma festa que traz o tema “Maracatu Rural” e, além de emagrecer, descansar e revigorar mente e corpo, o folião do Oásis tem a opção de se divertir com atividades típicas da cidade.

A programação inclui o bloco carnavalesco “Fugitivos do SPA”, que sai do SPA em direção a cidade de Gravatá, ou visitar a cidade vizinha de Bezerros (30Km), famosa pelo seu carnaval de máscaras “papangus”. São duas opções de pacotes para o período de 5 e 9 dias - de sexta (17/02) a quarta (21/02) e de sexta (17/02) a domingo (26/02) respectivamente, a partir de R$ 1.275,00. Já para aqueles que não abrem mão de se divertir no carnaval, mas desejam fazer um relaxamento para se recuperar dos excessos, a dica é o pacote pós-carnaval, que vai da quarta (21/02) a domingo (26/02) e tem tarifa promocional de R$ 525,00 para pagamento em duas vezes sem juros.

Conforto e charme são sinônimos da estrutura do Spa Oásis (www.spaoasis.com.br), especialmente projetado para proporcionar um ambiente voltado ao relaxamento, contato com a natureza e cuidados com o corpo, além da prática do turismo saudável. Inaugurado há 6 anos e localizado em Gravatá (a 85 quilômetros do Recife) é um hotel que oferece aos hóspedes bem-estar físico, psicológico e lazer. São 30 mil metros quadrados totalmente arborizados com preservação de espécies vegetais e animais.

Na área do spa, programas de emagrecimento, relaxamento, fitness e qualidade de vida, além de métodos de relaxamento, como aromaterapia, massagens relaxantes, revitalizantes e ayurvédica, que são disponíveis também para os hóspedes do hotel.

Com cardápio hipocalórico e balanceado (proteínas, carboidratos e gordura saudáveis entram no cardápio de forma equilibrada), o hóspede do hotel é beneficiado também com a produção de vegetais, leite e derivados orgânicos, o que possibilita um tratamento de desintoxicação sem passar fome ou sofrimento, já que o programa alimentar (de aproximadamente 900 calorias) é montado para que o visitante perca peso sem agredir o funcionamento do organismo. Para àqueles que não desejam seguir a programação do spa, o restaurante Oásis tem atendimento à la carte, com gastronomia requintada e abastecida pela horta local.

Pacote de Carnaval:

Período de 5 e 9 dias - de sexta (17/02) a quarta (21/02) e de sexta (17/02) a domingo (26/02) respectivamente, a partir de R$ 1.275,00 Nos pacotes estão inclusos hospedagem, alimentação balanceada, avaliação física – percentual de gordura por bioimpedância, programa de atividade física, além de palestras de orientação nutricional.

Já para aqueles que não abrem mão de se divertir no carnaval, mas desejam fazer um relaxamento para se recuperar dos excessos, a dica é o pacote pós-carnaval, que vai da quarta (21/02) a domingo (26/02) e tem tarifa promocional de R$ 525,00 para pagamento em 1+1 sem juros.

Mais informações: 08007090380 / 81 3533-0380 / 9168.0990 - www.spaoasis.com.br.•

Publicado por Paulo Nunes, de Daniela Luci, às 09:24
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30 de Dezembro de 2006
Grandes Momentos do Brasil

Momentos históricos podem ser conferidos/relembrados agora mesmo. Basta clicar abaixo sobre o tema desejado:

Publicado por Paulo Nunes, às 23:24
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30 de Dezembro de 2006
O julgamento de Rondon

ndo o historiador norte-americano Todd Diacon, 48, começou a estudar Cândido Mariano da Silva Rondon (1865-1958), logo percebeu a dificuldade que teria para transpor a cisão profunda entre as leituras que se fizeram até hoje sobre esse oficial do Exército que semeou a base da política do Estado brasileiro com relação aos índios.

É claro que todo pesquisador que se proponha a estudar um personagem já sabe de antemão que terá de enfrentar os que o amam e os que o odeiam, mas, no caso de Rondon, Diacon diz que se deparou com um verdadeiro abismo. "Parecia que eu estava diante de duas pessoas completamente diferentes", contou o pesquisador e vice-reitor da Universidade do Tennessee à Folha.

Afinal, existem os que o admiram pela convicção com que defendeu a expansão de uma determinada idéia de Brasil por rincões afastados do país e os que o acusam de tentar aculturar e assimilar os indígenas "na marra". Conseqüentemente, de um lado uma literatura hagiográfica, e, de outro, uma visão revisionista. Diacon apostou num ângulo que considera pouco explorado pelos estudiosos brasileiros, o da análise de como o positivismo definiu o modo de pensar e de agir do personagem ao longo de sua vida.
"O positivismo, a idéia de que poderia "melhorar" o Brasil por meios científicos, levando o que acreditava ser a civilização para a selva, tornou-se uma verdadeira obsessão para Rondon", diz Diacon. "Sem essa inspiração, ele jamais teria se armado de forças para enfrentar as dificuldades que encontrou", completa.

À frente da Comissão Rondon, o marechal comandou a construção de uma linha telegráfica no Mato Grosso na primeira década do século 20 e encabeçou explorações pela região Amazônica que resultaram no mapeamento de parte do território e na aproximação do Estado brasileiro a uma grande quantidade de tribos indígenas. A partir de 1910, tornou-se diretor do recém-criado Serviço de Proteção aos Índios.

Entre as tais dificuldades a que se refere Diacon, Rondon enfrentou malária, ataques de índios hostis, deserções em massa de oficiais que temiam a doença e os perigos da floresta e um sem-número de imprevistos. "A aventura que Rondon viveu por conta de sua utopia é um filme fascinante", diz. O historiador ficou tão impressionado com a história do oficial que diz ter minimizado, de propósito, a questão teórica a que tinha se proposto no começo da pesquisa. "Eu poderia ter feito um livro inteiro discutindo a questão da formação da idéia de nação no Brasil e na América Latina. Isso é que tinha me levado, inicialmente, a me interessar por Rondon. Mas achei que relatar a sua trajetória num primeiro plano atingiria de forma mais certeira o meu objetivo."

O retrato de Diacon não é parcial. Por meio das contradições que revela sobre o personagem, o historiador tenta desconstruir parte das argumentações contra e a favor dele. Rondon surge implacável com os soldados que integravam a comissão, exigia disciplina, aplicava castigos físicos e forçava os doentes a seguir trabalhando. Por outro lado, aos índios dispensava um tratamento bondoso. "Uma bondade que tinha uma intenção clara, a de seduzi-los a se aproximar do que considerava ser a civilização", diz. "Mas os que o acusam de tentar aculturar os índios não percebem que, naquela época, as opções que existiam, além da que ele propunha, eram piores, e incluíam até a de exterminar aquelas populações", defende Diacon.

Entre as passagens mais interessantes do livro está a que descreve a expedição de Rondon e o ex-presidente norte-americano Theodore Roosevelt em 1914 pelo interior do Mato Grosso. Enquanto Roosevelt imaginava estar fazendo uma espécie de passeio exótico, do qual levaria fotos para mostrar para os amigos, Rondon realizava um trabalho sério de mapeamento e não se importava com os males que atingiam a expedição. Só quando o filho do ex-presidente ficou seriamente abatido pela malária é que Roosevelt convenceu Rondon a levá-lo de volta à "civilização".

"Foi muito engraçado ler sobre a viagem, porque nós, americanos, temos de Roosevelt a idéia de um homem forte, corajoso, e, durante esse episódio, nota-se que estava completamente apavorado", diz.

Curioso por estudar o Brasil depois de ter feito um curso com o brasilianista Thomas Skidmore na Universidade de Wisconsin, Diacon primeiro escreveu sobre o Contestado.
Depois, para montar a biografia de Rondon, mudou-se temporariamente para o Brasil (acabou, inclusive, casando-se com uma brasileira) e mergulhou na documentação existente sobre ele -em geral relatórios e diários de viagem- no Arquivo Histórico do Exército no Rio de Janeiro, no museu do Exército do Forte de Copacabana e no museu do Índio.

Além disso, conta que visitou Cuiabá, Rondônia e os lugares por onde Rondon passou, mas que isso não o entusiasmou. "O que vi lá mostra que o sonho de Rondon se realizou. Aquilo é justamente o que ele queria. Você encontra Lojas Americanas, Bradesco, e pode até ter uma vida parecida com a que tem em outros grandes centros do Brasil. Mas será que isso é bom ou mal?"•

Publicado por Paulo Nunes, de SYLVIA COLOMBO, às 22:45
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22 de Dezembro de 2006
Câmara entrega Título de Cidadão Conquistense

Confira a Galeria dos Homenageados:

Publicado por Paulo Nunes, às 18:13

 


 
 
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Perfil

Paulo Nunes
É jornalista e advogado;
• Iniciou no jornalismo em julho de 1987, como repórter do jornal ‘O Radar’ de Vitória da Conquista;
Foi repórter do Correio da Bahia em 1998;
Foi repórter da Revista Panorama da Bahia da Cidade de Feira de Santana;
• Foi repórter e colaborador da Revista ‘A Bahia de Hoje’;
Em 1990, criou o ‘Jornal Hoje’ de Vitória da Conquista;
• Em 2001, foi editor chefe do ‘Diário do Sudoeste’ de Vitória da Conquista;
Em 2001 iniciou como comentarista do Programa ‘A Cidade em Revista’ da Rádio Clube de Conquista, junto com o radialista Edmundo Macedo;
• No dia 14 de julho de 2004, por determinação da direção da Rádio Clube de Conquista, se tornou apresentador do Programa ‘Tribuna Livre’ que vai ao ar de segunda a sexta-feira, ao meio dia pela Rádio 96 FM - um programa líder de audiência no horário.

 
 
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