Vitória da Conquista . Bahia
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08 de Janeiro de 2008
DISCURSO PRONUNCIADO NA NOITE DE AUTÓGRAFOS DO LIVRO
Por Ubirajara Brito*

“JOSÉ PEDRAL E O GOLPE DE 64”
DE AUTORIA DE DILSON RIBEIRO

"O planalto de Conquista tem a configuração de um triângulo, com base descansando nas cabeceiras do Rio Pardo, na divisa com Minas, entre a Serra Geral e a Serra dos Aimorés, e vértice oposto apontando para o norte, em Cachoeira de Mané Roque, atual Manoel Vitorino. A Região tem topografia e situação geográfica que a distinguem de outras da província da Bahia, conferindo-lhe identidade própria. Completamente isolada até 1930 da região costeira pela Mata Atlântica, que cobria os baixios, indo do Jequitionha ao baixo Rio de Contas, essa mata, uma barreira natural, povoada de índios, com cerca de 500.000 hectares, foi completamente destruída, de 1930 a 1960, a um ritmo médio de 16.600 hectares/ ano. Compreendia as terras férteis do Vale do Palmeira, do Córrego do Nado até Coroa, hoje Pau Brasil, as terras do Couro Danta e Pedra de Três Pontas, Rancho Queimado, Agelim, Samba e Cotinguiba. Todas devastadas, principalmente por conquistenses, da cidade, pois ali só se estabeleceram Américo Nogueira, em Palmares, Atanazinho no Córrego do Nado e Paulino Gugé no Samba, em 1935. Até 1930 portanto a Mata Atlântica nos isolava da costa.

Em 1928 meu pai conduziu duas carneiradas, para vender em Ferradas e Tabocas, atual Itabuna. Eram 4 meses de viagem, incluindo o tempo de vender a carneirada e descansar a tropa. Durante este período, minha vó vestia-se de luto, tal era o perigo de atravessar a mata da atual Itapetinga, que não existia, até Floresta Azul, pois os índios eram os donos absolutos da terra.

Na seca de 39, meu pai e meu tio compraram umas matas no Rancho  Queimado. Enquanto preparava algum pasto, eles arrendaram uma fazenda no pé da Pedra de Três Pontas, que pertencia ao senhor Janga, exatamente onde está hoje Itarantim. Meu tio era o gerente e fez amizade com os índios do Couro Danta. E me levou para conhecê-los. Eu tinha cinco anos. A aculturação apenas começava. Os jovens, moças e rapazes, expunham as suas vergonhas naturalmente. Uma velha catava piolhos em um menino e os mastigava com gosto. Foi a imagem que eu guardei.

A terra ali não valia nada; a mata, muito menos. Em meados dos anos 20 João Fonseca, pai de Paulino Fonseca, com pouco mais de dez alqueires, em Ribeirão do Largo, comprou duzentos na Pedra de Três Pontas, nas águas do João Diá e Maiquinique.

Estendia essa mata até o braço sul do Rio São Mateus, em mais de 1.500.000 hectares, esparramando-se a oeste no estado do Espírito Santo e Minas Gerais, até alcançar Figueirinha do Rio Doce, atual Governador Valadares. Dessa área, restam apenas cerca de 20.000 hectares no Parque de Monte Pascoal e na reserva situada entre São Mateus e Linhares. Foi toda devastada de 1930 a 1970.

Ao sul, Conquista se isolava por uma intricada Mata de Cipó, que começava na Suçuarana, em Quaraçú, passando pela Serra, de Sinhô de “seu” Póla, e por Porto de Santa Cruz, Cercadinho, atingindo a Mata Atlântica nas alturas de Mata Verde e Bandeira. O único acesso possível era pelo sudoeste e pelo oeste, já que pelo sul, leste, nordeste e norte as matas e o relevo cercavam até Cachoeira de Mané Roque.

Oferecia-se então o caminho natural, pelo sudoeste, percorrendo as margens do Rio Ressaca, na atual divisa de Minas, acima da fazenda Tamboril, na vertente direita da Serra Geral, Município de Tremedal, nos períodos de seca, porque, nas águas, o Rio Ressaca alagava suas margens, ou pela esquerda dessa, passando por Água Quente, Condeúba, alcançando o Vale do Gavião. Cercada assim, Conquista estava isolada da capital, ligando-se a esta apenas por uma precária estrada que levava até Jequié. Estrada aliás que o Coronel Zeferino Correia de Melo quis transformar em rodovia. Para isto foi ao seu amigo, Governador Góes Calmon, que lhe disse: “Conquista precisa é de estradas para boiadas; e estas já existem”. Chegando a Conquista, Zeferino organiza uma empresa para abrir a estrada de rodagem. Dos dez sócios, nove eram descendentes de João Gonçalves da Costa. E em 14 de julho 1927 ela foi inaugurada, com João da corrente cobrando pedágio.

A única estrada que levava à capital, tinha como ponto obrigatório a Garganta do Castanhão, logo depois de Cachoeira de Mané Roque, por onde tinham que passar as boiadas e tropas. O Castanhão era famoso por seus umbús. Um meu tio, que viajava a Feira de Santana, tangendo boiada e tropas, acompanhando Rodolfo Lacerda, em 1925, decorou uns versos enaltecendo o umbú do Castanhão, e me ensinou:

 Em setembro ele floresce,

Em outubro reverdece,

Em dezembro amadurece,

Imbú doce igual a esse, não tem não,

É imbú do Castanhão.

Certamente não foi por causa dos umbús que João Gonçalves foi se estabelecer em Cachoeira de Mané Roque. Sendo ali passagem obrigatória das tropas e boiadas, era fácil a fiscalzação. E foi ali que o Príncipe Maximiliano o encontrou, forte e lúcido em 1817, com mais de oitenta e cinco anos de idade.

Conquista se povoou pelo sudoeste. Primeiro com João Gonçalves da Costa e seus filhos. Depois com Apolinário, Luiz e Manoel de Oliveira Freitas, Bernardo Lopes Moitinho e João Fernandes de Oliveira, portugueses; os Gusmão, os Ferraz, os Correia e muitos outros, vindos de Grão Mongol, de Taubaté, de Campinas, que se juntaram aos portugueses, dando origem à família conquistense. Do Recôncavo vieram   José Nunes Baiense e o Padre Andrade, de numerosa prole; os Salles, os Santos, os Figueira de Santo Antônio. Da Chapada Diamantina, e do piemonte da Chapada, depois da seca de 1899, vieram os Brito, os Pinto, os Lima e Silveira, os Borba e Spinola, de Caetité. E os sírio-libaneses encontraram aqui oportunidade e paz que o Império Turco-Otomano, decadente, não lhes podia oferecer.

A população de Conquista difere da população da costa até antropologicamente. Conquista não tem negros retintos como nas costas da Bahia, mas tem sangue africano. Pouquíssimos os brancos. Tem mulatos, como eu, sarará, de olhos azuis, como Dílson, temperados como Pedral, gasolina como Raul Ferraz. Da população de Conquista cerca de 10% deve ter o DNA de João Gonçalves da Costa. Um pouco menos do que os 15%, encontrados na Mongólia, descendentes de Gensis Kahn.

Evidentemente, mais tarde, no século XX, outras correntes contribuíram para o desenvolvimento de Conquista. Refiro-me aos Viana, aos Cairo, de Ituberá, aos Andrade e Rebouças, do Vale do Jequiriçá, aos Quadros, de Castro Alves, aos Celino e Luna, de Miguel Calmon, aos Rodrigues, de Ribeira do Pombal, aos Amorim, aos Liberal Batista, de Afogados da Ingazeira, aos Dantas Alves, de Lençóis. Todos absorvidos pela cultura local. Nos anos vinte e trinta foi à vez dos cometas, os viajantes: Belmiro Araújo, João Lopes, Maciel, Arlindo Rodrigues, Joaquim Hortélio, Nascimento, Antonino Pedreira, Guilherme Aragão, e outros, casados em Conquista com moças ricas. Todos assimilados. Vindos de diversas partes, os professores, intelectuais autodidatas, Euclides Dantas, Ernesto Dantas, Chiquinho Fagundes, Abílio Rosa, Bleza, Fabrício, depois, Padre Palmeira, Everardo Publio de Castro, Afonso Hofman, integrados todos à nossa cultura.

Conquista assim se erige em província à parte e, ainda que encravada em território baiano, pôde então desenvolver seus mitos, seus valores, cultuar seus heróis. Só o planalto de Conquista pode produzir a poesia de Maneca Grosso, de Laudionor Brasil, Nilton Gonçalves, Jesus Gomes dos Santos e de Camilo de Jesus Lima. Só Conquista poderia produzir a musica de Elomar Figueira e de Xangai. Só Conquista poderia inspirar “Terra em Transe” de Glauber Rocha. Nossa fala é empostada, meio retro-palatal, diferente da fala estridente e bilabial dos baianos. Conquista tem uma culinária própria, baseada em porco, carne de boi, carneiro, galinha caipira, feijão, andú, feijão verde. Cortados: couve, maxixe, abóbora, quiabo, ... Peixe, só na Quaresma. Dendê? Quando conheci Nita Preta, eu tinha 16 anos.  O homem conquistense é circunspecto, não trata ninguém por você no primeiro encontro. A mulher é pudíca, recatada e de gestos espontâneos, mas comedidos. É tudo diferente do que se vê nos baixios da costa.

Na década de 50/70 essa cultura estratifica-se, dando-nos personalidade e identidade, fazendo-nos tolerantes e solidários. Ninguém nunca perguntou a Gerson Sales se ele era protestante, a Edvaldo Flores se ele era espírita, a Raul se ele era católico, ou a José Pedral se era materialista, para dar-lhe o voto. Nunca vi três homens tão amigos quanto Pe. Palmeira, Everardo e Afonso Hofmam. Um católico, outro comunista e o terceiro, de direita.

        Temos possivelmente o melhor padrão de vida rural da Bahia.

Num bate-papo de três ou mais conquistenses, o assunto predominante é rural.

Nos anos 70, com o cultivo do café, o urbano vai ao campo. Sem macular a base cultural, adiciona-lhe o vocabulário, o léxico da agroindústria, sem conspurcar as raízes.

        Aqui, finalmente, não foi o rural que se urbanizou, foi o urbano que se ruralizou.

 

Dílson no seu livro “JOSÉ PEDRAL E O GOLPE DE 64”, faz muito bem em enaltecer José Pedral, pois Pedral é um dos nossos heróis. Em linguagem simples, plana e escorreita, ele pontua as ações de Pedral como homem publico, cuja envergadura transcende aos homens comuns. Pedral nasceu em Conquista, vive e só pensa para Conquista. 

O Prefácio de Isabel é primoroso. A biografia da infância e adolescência escrita por Conceição desce a detalhes lúdicos. Dílson discorre sobre as atividades públicas e privadas de Pedral, fazendo com que, virando em qualquer direção, o leitor encontre uma iniciativa ou obra de Pedral: um mercado, uma praça, um viaduto, a urbanização e drenagem da parte leste da cidade ou o assentamento da fazenda Amaralina. Ou o Cristo. Tudo isto, sem trair a independência política que sempre nos norteou.  

Pedral, um ícone, pagou o seu tributo a Conquista. Pagou com obras e em sacrifício. Sacrifício materializado no que sofreu  e viu sofrer seus amigos e companheiros durante 20 anos de ditadura.

Conquista estimula os seus jovens para a atividade privada e a atividade publica, mas cada um tem que retribuir-lhe por esta emulação. Dílson o fez como agente de viagem, vereador, ou implantando a Companhia Telefônica, dirigindo-a com competência, seja como empresa privada, seja como empresa pública, durante 21 anos e escrevendo seus livros sobre Conquista. Pedral o fez nas diferentes obras e iniciativas em beneficio de Conquista. Eu modestamente o fiz, quando tive poder, implantando aqui o Centro Federal de Educação Tecnológica ( CEFET), trazendo para a UESB a primeira rede de microcomputadores, o primeiro provedor de Internet do interior do Estado, equipando o restaurante universitário, ajudando a construir a APAE, instalando na UESB a plataforma automática de coleta de dados metereológicos, enviando os cinco primeiros conquistenses, depois de Edvaldo Flores, para fazerem pós-graduação no exterior, apoiando os primeiros projetos de pesquisa e concedendo as primeiras bolsas de iniciação cientifica da UESB; ajudando o Deputados Elquison Soares na construção da Barragem de Anagé em 12 meses, construindo o complexo educacional de Anagé e ali implantando uma plataforma automática de coleta de dados metereológicos, liberando recursos para pavimentação de todas as ruas de Tremedal e construção de prédio escolar, construindo em quase todos os municípios da região pelo menos uma quadra esportiva. Por Conquista, iniciamos a municipalização da merenda escolar.

Por que eu perdi a modéstia e citei o que eu fiz por Conquista?

Para dizer  àqueles que tem representação política, que tem poder, que eles têm também contas a prestar à nossa cidade, à nossa região.

O administrador publico não tem que dizer o que deve fazer à iniciativa privada. Deve sim, criar condições para que a iniciativa privada faça o que lhe convém. Conquista vem andando, no seu desenvolvimento, mais pela iniciativa privada, do que pela iniciativa pública. A iniciativa privada, contudo, está a beira da exaustão, pois Conquista tem quatro problemas sérios e urgentes a resolver e um a regulamentar. O primeiro é a água.  É preciso providenciar com urgência água para Conquista, e essa água tem que vir do Rio Pardo, à altura de Berizal, em Minas, com recalque de 70 a 100 metros. O segundo é o aeroporto, que já se encontra obsoleto, comprometendo o desenvolvimento da região. O terceiro é a Universidade Federal. Criaram uma Extensão da Universidade Federal da Bahia em Conquista, com três Cursos fracos. É uma extensão mambembe de uma Universidade medíocre, constantemente em crise, num Campus sem planejamento. O Governo Federal acaba de anunciar que vai criar dez novas Universidades. Pelo que sinto, Barreiras será contemplada, o que será uma vantagem competitiva considerável. O quarto é o pólo de Software, pois Conquista tem vocação para as especulações teóricas. E Software depende de pouco investimento em equipamentos e muito cérebro. E Conquista os tem. Finalmente, o problema a regulamentar é simples. -Conquista está sendo cercada por um cinturão de loteamentos com ruas de 6 metros de largura. Isto é um crime urbanístico. Este cinturão vai nos sufocar.

Eis os problemas urgentes que repassamos para o caderno do dever de casa dos políticos e administradores de Conquista.

Se fizemos o nosso dever de casa, por que os outros não podem fazer?

Conquista é uma cidade agradável para se viver. Não tem morro derramando miséria sobre a cidade. Tem casebre, mas não tem favela. Tem pobres, mas não tem miseráveis. Não tem pedintes nas ruas, nem meninos nos semáforos. Tem o mais aprazível clima deste pais. Anápolis, Goiânia, Uberlândia, Belo Horizonte e Conquista têm as mulheres mais bonitas do Brasil.

O livro de Dílson é uma demonstração de amor a Conquista e do amor de José Pedral a Conquista.

Por isso minha oração, por Dílson, por José Pedral e por mim.

Conquista merece o nosso amor.

        Amo Conquista, nas suas alturas, perto dos céus,  onde colho estrelas e dialogo com  os deuses;

Amo Conquista, encrustada na serra do Periperí, espalhando suas bordas no planalto infinito;

Amo Conquista, por sua aurora d’ouro e por seu crepúsculo vésper, em que o sol, cansado, em fogo, repousa lentamente num manto purpúreo de horizonte;

Amo Conquista, dos desbravadores e chefes indômitos, João Gonçalves da Costa e Antonio Dias de Miranda;

Amo Conquista, do intrépido Dino Correia, do justo Coronel Gugé, do magnânimo Regis Pacheco, do empreendedor José Pedral Sampaio;

Amo Conquista no encanto e bravura de Fulô do Panela, na fé messiânica de Melânia Salles, na liderança e bondade de Tina Gusmão, na coragem e determinação de Izabelinha, na caridade meiga de Laudicéia, na firmeza e bondade de Olívia Flores, no lirismo e doçura de Cotinha, na risada e altivez de Zaza Rosa, na solidariedade e carinho de Herriqueta Prates;

Amo Conquista na brancura perolada de seus copos de leite, no perfume suave de seus cravos brancos, no envolvente frescor de sua brisa, no ósculo molhado de sua neblina.

Por tudo isto, eu amo Conquista.

E quando me perguntam se sou baiano, respondo: Sim. Sou conquistense. Do Sertão da Ressaca".

Publicado por Paulo Nunes, às 15:05.

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Perfil

Paulo Nunes
É jornalista e advogado;
• Iniciou no jornalismo em julho de 1987, como repórter do jornal ‘O Radar’ de Vitória da Conquista;
• Foi repórter do Correio da Bahia em 1998;
• Foi repórter da Revista Panorama da Bahia da Cidade de Feira de Santana;
• Foi repórter e colaborador da Revista ‘A Bahia de Hoje’;
• Em 1990, criou o ‘Jornal Hoje’ de Vitória da Conquista;
• Em 2001, foi editor chefe do ‘Diário do Sudoeste’ de Vitória da Conquista;
• Em 2001 iniciou como comentarista do Programa ‘A Cidade em Revista’ da Rádio Clube de Conquista, junto com o radialista Edmundo Macedo;
• No dia 14 de julho de 2004, por determinação da direção da Rádio Clube de Conquista, se tornou apresentador do Programa ‘Tribuna Livre’ que vai ao ar de segunda a sexta-feira, ao meio dia pela Rádio 96 FM - um programa líder de audiência no horário.