Por Paulo Pires*
Haroldo Lima e o Mercado
Uma discussão que esquentou o noticiário brasileiro no inicio desta semana foi a declaração do ex-deputado Haroldo Lima (PC do B, da Bahia) hoje presidente da Agência Nacional do Petróleo – ANP, sobre a nova reserva de petróleo encontrada pela nossa estatal Petrobrás. Trata-se do Bloco BM-S-9, apelidado de a Carioca. Segundo a revista americana World Oil de fevereiro, esta reserva poderá ser a terceira maior do mundo. O que fêz Haroldo Lima? Reproduziu simplesmente o que disse a publicação americana e nada mais. Aliás, quem ouviu o pronunciamento do Haroldo na Fundação Getúlio Vargas do Rio de Janeiro (e que tenha cursado bem feito pelo menos o antigo curso primário), há de constatar que a sua fala em nenhum momento é afirmativa. Todos os tempos verbais usados pelo presidente da ANP estão no futuro do pretérito e/ou no futuro do presente (traduzindo sempre enunciados hipotéticos).
Diante da informação de que o poço poderá ser o terceiro maior do mundo, os especuladores que estavam na palestra saíram em disparada para a Praça XV (onde fica a Bolsa de Valores do Rio de Janeiro) e aos berros proclamaram a descoberta como algo definitivo. Foi um pega-pá-capá dos diabos! As ações da Estatal subiram quase 8% e o Mercado (o deus dos gananciosos) entrou em convulsão. A imprensa especializada em economia, representada por jornalistas do naipe de Luis Nassif, Miriam Leitão, João Paulo Kupfer, Denise Campos de Toledo e outros procuraram o Haroldo para que ele confirmasse a informação. O Haroldo, homem sério que é, disse que a sua fala estava pautada sobre a avaliação da revista americana. E que ele, diante do trabalho da revista, estava otimista, mas não avalizava integralmente a opinião daquela publicação, pois tudo ainda estava no campo das hipóteses (suposições).
No dia seguinte, o programa Bom Dia Brasil da TV Globo, fêz uma chamada absolutamente grosseira, chamando o Haroldo Lima de irresponsável. Este noticiário, todo mundo sabe, é um dos porta-vozes oficiais dos velhos e novos ricos do Brasil. Renato Machado, o apresentador, interpretando um personagem altamente preocupado apelou para a inteligência de Miriam Leitão e esta por sua vez criticou asperamente o pronunciamento do presidente da ANP. O que foi engraçado é que o pessoal do mercado (os especuladores) em nenhum momento reconheceu sua tênue capacidade de interpretar falas e discursos simples. A ganância é tão desmesurada que os “camaradas” não se preocupam com o que ouvem. Só vêem dinheiro. Dinheiro. Vamos ganhar dinheiro! É isso que basta! Final da história. Haroldo provou que não antecipou nenhuma descoberta do paraíso (ou chegada ao Éden) e quem comprou ações acima do preço tomou na tarraqueta! Bem feito! Quem mandou não estudar tempos verbais...
Outra coisa formidável nesse episódio é que o espadachim presidente da ANP não se intimidou com qualquer tipo de pressão. Ao contrário. Afirmou com segurança não ter compromisso com Bolsa de Valores, seus especuladores, e muito menos com a Comissão de Valores Mobiliários. E mandou um recado digno de quem tem moral: “Os que usaram suas declarações para especular e ganhar dinheiro com a valorização das ações da Petrobras, isso não é problema meu. É um problema da Bolsa de Valores. Nem sei onde fica essa Bolsa de Valores", disse o presidente da ANP. Arrematando o discurso com a nítida intenção de deixar o deus-Mercado mais alucinado, disse que “não tem nada comprovado e que existem perspectivas de grandes descobertas, mas que deverão ser feitos novos testes”. De minha parte concluo: Quem quiser apostar que o faça sabendo do risco.
Será que o Mercado não está preparado para analisar informações? Gostaria de mandar um abraço para o bom e valente Haroldo e dizer a ele que fiquei seu fã. Mande essa cambada de mal-feitores ir se danar. Se eles acharem ruim, recomende a eles, Haroldo, gramáticas de Celso Cunha e Evanildo Bechara. Nunca é tarde para se aprender coisas importantes. Principalmente interpretação de textos.
Enquanto isso fiquei pensando: Ah, se aqui em casa estourasse um poço de petróleo... Seria tão bom economizar gastos com gasolina. Juro que daria um galão todos os dias para os meus vizinhos. Deles não exigiria nada, a não ser uma notinha de R$ 20,00. Já seriam (olha o tempo verbal) suficientes para 8 cervejas. Mas Deus não dá asa a cobra. Por isso não tenho gasolina e estou fora do Mercado (ainda bem). Um abraço cordial e até a próxima.
Paulo Pires (*) Professor UESB-FAINOR |