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E AGORA JORNALISTAS?

Jeremias Macário

Há muito tempo que já não conseguia distinguir se jornalista era escritor ou se escritor era jornalista. E a questão entre literatura e linguagem jornalística? Já percebeu as biografias dos escritores? Sempre está lá a função de jornalista no seu currículo.

Tem um ditado que diz que o advogado acha que é Deus, mas o jornalista tem certeza. Talvez fosse essa a única forma de identificação, mas agora com a não obrigatoriedade do diploma embaralhou tudo. E agora jornalistas? Como diz o poeta: A porta fechou, não há mais chave, não há mar… E agora?

Agora não se tem mais dúvida, todo escritor é jornalista porque está exercendo a sua liberdade de expressão, conforme a interpretação do Supremo Tribunal Federal. Aliás, como no futebol onde cada um é técnico, todo mundo é jornalista, basta escrever alguma coisa em lugar qualquer. Não importa se na internet, no jornal, num pedaço de papel ou no caderno escolar.

Parece que deixei confusa a minha posição, mas depois da decisão do STF fiquei assim: um tanto destrambelhado do juízo. Deram um nó na minha cabeça depois de 36 anos de profissão – nem sei se é mais – e de ter recebido o canudo da Faculdade de Comunicação da UFBA em 1973.

Não sei se choro ou se me esgano todo de dentro para fora ou de fora para dentro. Tudo indica que surtei de vez. Fomos comparados a um chefe de cozinha e a uma simples receita culinária. De forma alguma estou menosprezando a gastronomia, ou desdenhando da importância de um cozinheiro. É que o Supremo acabou de me fazer de palhaço com sua palhaçada.

Logo no outro dia (18/06) pela manhã após o acontecido da Corte, recebi um telefonema do meu amigo Romero que me indagou o que achava. Confesso que fiquei atordoado e me pegou de “coque” como me disse certa vez um prefeito do interior. Poderia ser com as calças nas mãos, desprevenido.

Respondi ao meu amigo que vários fatores contribuíram para a decisão do Supremo, assim penso (outros podem ter suas opiniões). Há muito tempo que as instituições (Congresso, Judiciário e Executivo) vêm fazendo uma orquestração pesada e rancorosa contra a mídia, culpando-a pelos crimes cometidos pelos seus representantes, principalmente da parte dos políticos que não rezam pela cartilha da ética e da honestidade.

Já observou que o presidente Lula, para confundir, sempre morde e assopra quando acusa a imprensa pelas denúncias contra seus políticos e coligados e, ao mesmo tempo, afirma que a mídia é necessária e fundamental. O que é mais danoso: as críticas de Lula ou a decisão do Supremo? Errou tanto na Lei de Imprensa como no caso do diploma.

No dia que saiu o veredicto, nas edições dos principais jornais de São Paulo, dos 29 artigos, apenas 18 eram de autoria de jornalistas. Uma prova de quer não existe restrição ao livre pensamento. O fato de se exigir o diploma não tira o direto de o cidadão manifestar seu pensamento. No entanto, nas escolas, os futuros profissionais são treinados por professores de ética e legislação, alertando até onde podem ir.

A matéria foi apreciada a partir de julgamento de recurso interposto pelo Ministério Público Federal e pelo Sindicato das Empresas de Rádio e Televisão de São Paulo. Simplesmente, o Supremo enforcou os jornalistas por achar que eles eram deuses malignos e malditos que praticam crimes hediondos.

As idéias atrasadas dos ministros comandados pelo seu supremo todo-poderoso Gilmar Mendes, o homem do habeas-corpus, dão mais a impressão de rancor e vingança num julgamento que nem deveria ter existido, não fosse a pressão de empresários que só visam o lucro, sem importar para a qualidade e o conteúdo. Não deveria também ocorrer esse julgamento se a categoria de jornalistas estivesse forte, unida e coesa.

Há muito tempo que a classe está dispersa; caminha isolada com cada um apenas cuidando de si; e está acéfala. A Federação Nacional dos Jornalistas (FENAJ) e os sindicatos perderam a força e se desgastaram. A não ser pequenos grupos que se concentraram praticamente em e-mails pela internet, o movimento não conseguiu mobilizar os milhares de jornalistas (80 mil) e estudantes em defesa da profissão. Por ironia, ficaram sem espaço na mídia dominada pelas grandes famílias dos barões latifundiários da informação. Eles não julgam o risco do monopólio da informação para a democracia.

O jornalista pensou que era Deus, mas agora caiu na real de que é um trabalhador como outro qualquer que vende sua força de trabalho para exploração do capitalista que não está nem aí em dar qualificação para seu público. Com a banalização decretada pelo Supremo, a mão-de-obra do “jornalista” vai ser rifada mais ainda pela empresa.

Com a não obrigatoriedade do diploma, não perde apenas os jovens acadêmicos saídos das faculdades, mas também os antigos jornalistas, os chamados provisionados que já atuam há muito tempo na área. E como fica a autoestima desses jovens que abraçaram a carreira? Acho que a banalização apenas foi oficializada já que há muitos anos o mercado já estava deturpado, prostituído e maculado por figuras que não têm nenhum compromisso para com o público.

Perde a sociedade de 180 milhões de brasileiros, pois agora qualquer um pode escrever e virar jornalista sem formação e conhecimento técnico. Agora em qualquer esquina vai ter um jornalista para contar causos. O Supremo confundiu liberdade de expressão com qualificação profissional e passa por cima do item da Constituição que fala em se preservar a formação acadêmica em se tratando de atividade profissional especializada. E agora jornalista, para que servem as faculdades? O ministro Gilmar Mendes estava comendo coentro na cozinha e se esqueceu dos seus amigos donos dos cursos de nível superior de Comunicação.

Depois dessa braba ressaca, resta aos sindicatos levantarem campanhas esclarecedoras, visando prestigiar a classe e a formação acadêmica. Resta alertar a sociedade para o perigo do uso da informação em mãos piratas, picaretas e de pessoas despreparadas. Resta reorganizar os cacos e fortalecer a classe frustrada em seus anseios.

No outro dia após a decisão da derrubada do diploma, o site mantido por um grupo de jornalistas estampou a revolta e a indignação, com perguntas e comentários os mais variados. O diploma agora só serve para fazer concursos públicos? E as carteiras de jornalistas? Como ficam as faculdades? Alguém desabafou, dizendo que Gilmar Mendes é um poço de ignorância. Se ele não sabe da importância do diploma de jornalista, imagine de gastronomia. “Cabeça vazia, oficina do diabo”. O que ele (Gilmar) vai fazer com o coentro e a cebolinha?

Pela internet, uma jornalista, se não me engano de Sergipe, envia uma carta a Heloísa Helena, dizendo da sua admiração e decepção pelo ministro Ayres de Britto. Em tom de revolta e desabafo num dos trechos da carta, a jornalista afirma: Sinto que perdi o meu tempo, o da minha família e perdi dinheiro…. Estudando mais de quatro anos na faculdade para ver um dia jogarem minha profissão no ralo nefasto e fétido deste país que só congratula a corrupção, só premia escrotos e dá poder a quem se submete ao sistema putrefato.

Estou cansada dessa tal esperança – diz ela num momento – para terminar, concluindo que escrevia não mais como jornalista, mas como uma cidadã. Também estou cansado dessa tal esperança e não escrevo mais como jornalista.

1 comentario on “E AGORA JORNALISTAS?”

  1. #1 Fique por dentro Faculdade » Blog Archive » E AGORA JORNALISTAS? – Blog do Paulo Nunes :: Noticias de Conquista
    em 23rd/jun/2009 as 9:02 am

    [...] só premia escrotos e dá poder a quem se submete ao sistema putrefato. … fique por dentro clique aqui. Fonte: [...]

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