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ACADEMIA DO PAPO

Um advogado para Judas

Em virtude da entrevista do presidente Lula à Folha de São Paulo, onde o Sapo Barbudo afirmou que “se Cristo quisesse governar o Brasil teria de fazer coligação até com Judas” o famoso personagem bíblico e representante-mór (?) dos traidores no Ocidente passou para o primeiro plano na cena política brasileira. Antes convém informar que Judas sempre foi muito fiel ao Nazareno. Mas por que até hoje fazem desse homem o símbolo “dosTraíras”? Por que Judas? Por que sacrificam tanto o Iscariotes? Por que as pessoas exigem tanto e não perdoam esse coitado? Por que não entendem que ele foi apenas o instrumento de uma decisão tomada por Deus? Pobre Judas, triste Judas…

No momento me foge o nome do autor, mas informo que existe um Ensaio excelente sobre o lado bom e nobre de Judas. Claro que esses aspectos positivos são pouco exaltados e mais ainda: São poucos os que sabem deles. O pior é que as notícias que em torno de sua personalidade se espalharam dão conta apenas que ele efetivamente foi um tremendo sacana. Mas a coisa não é bem assim. Eu mesmo já me convenci de que se existiu trairagem a coisa não deve ser debitada exclusivamente à conta do ex-apóstolo. Admito também que as histórias ao seu redor o eternizaram como um dos caras mais mal caráter das Escrituras Sagradas. Ao mesmo tempo [se você pensa como eu] convido-lhe a admitir que para ele, Judas, era impossível não cumprir os desígnios que Deus lhe atribuiu. Como fugir de uma decisão de Deus? O grande construtor do Universo disse a Judas: “Tu fostes o escolhido para trair Jesus”. Conforme o ensaio (cujo autor ainda não me vem à memória) Judas ficou maluco e disse: “Mas Senhor, como fazer isso com o Nazareno?”. Deus concluiu: “Será você e fim de papo”.

A partir de então o homem virou o símbolo da trairagem. Sobre simbologia posso dizer o seguinte: Do mesmo modo que para alguns católicos, Cristo continua aquela figura eternamente pendurada numa cruz, dando a alguns religiosos pentecostais a coragem para ironizar dizendo que nós, da Igreja Apostólica Romana, somos cultuadores de um Deus Morto, Judas virou o emblema da traição. Coitado…

Engraçado é que no dia 23 de agosto de 2009, dois meses antes da entrevista polêmica do presidente Lula, a cidade de Campo Grande-MS, a Ordem dos Advogados e uma Universidade daquele estado promoveram um Júri Popular para analisar e decidir se Judas foi ou não um traíra. Sabe o que aconteceu? Judas foi absolvido. Por um placar apertado, é verdade, mas foi. O resultado do placar? 4 a 3. Isso prova que as pessoas estão tomando mais consciência dos fatos e até o velho Judas está se reabilitando por um processo de revisão histórica. Hoje muita gente percebe que a sacanagem de lhe imputarem o símbolo da trairagem aos poucos está morrendo.

Por causa disso não tenho mais dúvida: A questão: “Se Judas foi ou não um grande sacana?” para mim está resolvida. O homem apenas cumpriu o que Deus lhe mandou e triste seria se ele não tivesse feito o que lhe determinou nosso Grande Pai, Senhor do Céu e da Terra, de todos os mares, todos os ares, Criador de todas as coisas. Imagine você, qual seria o destino de Judas se desobedecesse a Deus.

Concluo, então, que só desconhecimento e muita má vontade podem colocar o ex-apóstolo na situação de um grande filho da mãe. A essa altura do campeonato, eu não considero mais a hipótese de ele ter sido um sujeito ruim. Definitivamente acho que ele não foi, nem é e estamos conversados.

A História de vez em quando se equivoca (ou seriam os historiadores?). Situação análoga, penso cá comigo, se deu com Brutus. Durante muito tempo os historiadores fantasistas de Roma atribuíram a esse personagem caracteres que não condiziam com a realidade. Brutus durante séculos foi pintado como um das figuras mais ingratas da História Romana. Aos poucos, os grandes historiadores foram desfazendo a imagem de mau caráter e hoje, as melhores fontes da história da Itália conferem a Marcus Brutus uma das personalidades mais honradas daquela Roma pervertida, cheia de sem vergonhice.

Voltando a Judas, torno a repetir: Aos poucos as pessoas estão compreendendo que o pobre homem, se é que ele existiu, merece outras considerações. Afinal, o seu gesto de entregar Jesus ocorreu em função de uma determinação maior. Portanto, ele não tinha como escapar da incumbência que lhe atribuíram.

Interessante é que no Ensaio em defesa de Judas, o autor diz que na noite anterior “da entrega” Judas chegou prá Jesus e confessou: “Mestre eu não sou digno de estar ao seu lado, de andar com o Senhor”. Jesus pressentindo algo de estranho na fala do interlocutor procurou consolá-lo. Judas ficou com a sensação de que o filho de Deus já estava sabendo do desfecho da História. E assim se cumpriu. Judas fêz o “serviço sujo” e até hoje vive cheio de remorsos, com o rosto plangente vagando pelas mentes dos seres humanos. Todos os dias, dizem os poetas, ele roga por um bom, um grande advogado. Ò Senhor tende piedade de nós.

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