Por Juscelino Souza, jornalista
Ops, calma aí. Antes que me crucifiquem, me atirem pedras (ou balas), vamos por partes, como diria Jack, o estripador. Ao menos avisado leitor – e sei que não serão poucos por causa do peso do título acima – recomendo que leiam o texto até a última linha para que possam entender e opinar sobre o conteúdo reflexivo do mesmo.
Pra início de conversa, e só para refrescar a memória, Jararaca em si é um adolescente de 17 anos que desde os 13 impõe a lei do talião na paupérrima comunidade do Alto da Conquista onde vive (ou vivia, até ser retirado daqui para a região metropolitana de Salvador, num centro de ressocialização (???) para menores infratores.
Acusado de mandar e desmandar, de matar e pedir para que matassem, Jararaca, que até chegar aos 18 anos só poderá ser identificado jornalisticamente pelo apelido ou pela simples inicial M., tem contra si o peso de 9 inquéritos policiais, quatro acusações formais de homicídio e outras tantas ainda não apuradas.
Duas delas, e que alcançaram repercussão nacional, foram as mortes da adolescente Samara, filha de uma pastora evangélica, no final do ano passado e a mais recente, também no Alto da Conquista, do soldado militar, Marcelo Márcio.
E foi exatamente esta morte creditada ao adolescente que desencadeou uma sucessão de outros crimes de morte, num total – ainda em aberto, de pelo menos 20 óbitos, sem contar com as quase que certas dos três jovens sequestrados há mais Ed uma semana. Somos todos culpados.
Onde está a nossa culpa nessa história toda ? Aos senhores governantes e “otoridades”, a culpa está na falta de políticas públicas na periferia, a qual chamamos de “ocupação social”, com realização de oficinas educativas, como artesanato, teatro, atividades esportivas e palestras, por exemplo; aos defensores do Estado de Direito, apenas lembro que “Direitos humanos” deveria ser somente para “Humanos direitos” e para nós, membros de uma sociedade dita organizada, temos que dar a nossa contribuição, cobrando ações efetivas e aplicação correta dos impostos que regiamente pagamos.
Quando estive investigando o paradeiro de Jararaca, semana passada, não pude deixar de fazer uma leitura apurada da situação da comunidade. Ou seja; como ser humano, também vi a miséria grassar por entre becos e vielas e vi a esperança de centenas de crianças sujas, maltrapilhas e descalças escoar e descer ladeira abaixo carregada pela água fétida dos esgotos a céu aberto.
Vi, ali mesmo, o futuro dos jovens minar nas postas dos botecos, em mesas de cerveja, cachaça, acompanhada de rodadas de partidas de dominó, sinuca e baralho, em plena tarde. E as mães de família, como cuidar dos filhos, do pequeno ao maiorzinho, se ela mesma não tem alternativa, senão sair cedo para fazer a limpeza na casa da madame que mora em bairro nobre.
Onde está a creche, a escola integral – ou quiçá, parcial – para dar um mínimo de dignidade e cidadania aos periféricos moradores ?
Infelizmente os recentes episódios de violência serviram para despertar alguns segmentos sociais, já que nem o barulho das balas na cabeça de vítimas foi ouvido pelos donos do destino – que aquela altura estavam no mais profundo dos sonos, tal qual um processo letárgico. A hora de acordar é agora, antes que, em breve, ouçamos uma criança descer o morro, armada com revólver, pistola ou fuzil, eivada de ódio e rancor de uma sociedade hipócrita, disparando a esmo e gritando em desabalada carreira:
- “Jararaca é o meu herói”.





















em 5th/fev/2010 as 9:32 pm
Imaginemos que, naquela noite trágica, os dois policiais estivessem passado por outra rua ou, se estivessem passado, fosse em outro horário. Eles não encontrariam com o bando de malfeitores que vitimou um dos policiais. É possível que não seria desencadeada a onda de violência que os conquistenses presenciaram. Ninguém, com exceção de suas vítimas e vizinhos, ouviria falar de Jararaca. Ele iria continuar com sua vida e, supostamente, encontraria seu destino em um confronto com a polícia ou passaria uma temporada na cadeia. Outro Jararaca tomaria seu lugar. As baixas do bando seriam repostas e, vez ou outra, davam mostras à sociedade que a miséria e a desigualdade pode ser terreno fértil à face indesejável da sociedade: o crime.
Voltemos ao presente. Possivelmente a morte do agente da lei será esclarecida, os culpados encontrados e punidos. Os inquéritos sobre os assassinatos serão conclusos e provavelmente entrarão para a enorme estatística dos homicídios não solucionados. É possível que os desaparecidos reapareçam, ou seus corpos. Alguma discussão será feita. Algumas medidas propostas e… virá o dia-a-dia. Aos poucos, pouco se falará. Os miseráveis continuarão em seus bolsões e, no desespero de serem pessoas (pois aprendem, desde cedo, que pessoas são só aquelas que consomem) alguns se transformam em Jararacas, outros se conformarão nas cachaças e nos botecos e a vida seguirá normalmente. Até que, numa noite escura, ou até em dia ensolarado, as atenções forem novamente despertadas.